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No Pé do Ouvido - Podcast oferecido pelo aiégua com bate-papo descontraído entre artistas alagoanos sobre música, livros, cultura e outros assuntos pertinentes.

Não sabe o que é podcast? São programas em áudio ou vídeo, assim como os das rádios e TVs, porém na internet, onde o expectador pode assistir qualquer programa a qualquer momento, sem ficar preso a horários e a formatos padronizados pelas emissoras. Ou seja, são arquivos de áudio ou vídeo, que podem ser baixados ou assistidos diretamente pela internet, e até assinados como os feeds RSS.



 

Ovo No Da Galinha
(2 votos)
Verbum
Escrito por Mácleim (www.macleim.com.br)   

Final de outubro: agendado um encontro com o presidente da Fundação Cultural Cidade de Maceió e representantes dos Fóruns Permanentes - entre eles o de música. Começo de novembro: agendada reunião dos representantes do Fórum Permanente de Música de Alagoas com o secretário de cultura do Estado de Alagoas. Quem será capaz de adivinhar o quê de comum aconteceu nessas duas agendas? Isso mesmo. Acertou quem previu que nem um dos dois gestores compareceu. O municipal sequer deu uma desculpa para mais uma ausência anunciada. O estadual, segundo pesquisas feitas após sua ausência, teria alegado que análises em orçamentos não lhe permitiam honrar o compromisso assumido e mandou o sub. Parafraseando Gabriel Garcia Marquez, eis a crônica de uma morte anunciada. No caso, o respeito aos atores da cultura alagoana. Porém, essa é uma visão muito particular minha, e, talvez, não reflita o que pensam os colegas desprestigiados.

Do primeiro - o gestor municipal - não há mesmo o que comentar, já que sequer se deu ao trabalho de uma desculpa, pelo menos, esfarrapada. No entanto, há que se elogiar a coerência do seu comportamento. Sair de mansinho de onde se debate a ineficiência municipal para a cultura, fugir, e agora sequer comparecer ao que havia agendado, tem sido a marca registrada do nosso querido Marcial Lima, portentoso teórico na pele de gestor do seu projeto pessoal. Porém, dele, é até compreensível tal comportamento. Pelo menos do ponto de vista da fidelidade hierárquica. Afinal, seu chefe foi exemplar nesse quesito, na eleição passada.

Sendo assim vamos nos concentrar no biólogo gaúcho, gestor da cultura alagoana. De cara, observamos que uma planilha de orçamento tem mais importância que uma reunião com um segmento importante do nosso arcabouço cultural. A pergunta é: por que o nosso tchê cultural fica tão à vontade para agir dessa maneira? Afinal, a serviço de quem (além do povo, é claro) ele ocupa aquela pasta? Não há como chegar ao cerne das respostas sem antes passarmos pela autocrítica necessária e pertinente à nossa própria classe. Até mesmo para não dizerem que a crítica só é bem fundamentada diante dos gestores. Ou seja; nós, da área musical, não temos feito por onde sermos respeitados. Somos permissivos e coniventes com os nossos próprios erros, estamos letárgicos, acomodados, silentes e sem sonhos. Como vamos seduzir alguém se não conseguimos sequer nos seduzir? Se nos serve de consolo, tenho percebido que não é só aqui. A letargia se estabelece em nível nacional. Mas digo logo, se meus colegas melindram-se em vestir esta carapuça, eu, não.

Portanto, o secretário não precisaria ser quem ele é, nem abrandar sua fidelidade prioritária aos tutores políticos que o empossaram, e o mantém no cargo, para perceber nossa fragilidade permissiva e em cima dela deitar e rolar. Ainda mais, bem assessorado nesta questão, como de fato parece estar. Do contrário, em uma comunicação a um dos funcionários da Secult, a responsável pela Superintendência de Formação e Difusão Cultural não ousaria fazer a seguinte observação, que parece dar o tom democrático daquela pasta: “... por favor, quando contatar os grupos (musicais) evite brechas para especulações, sugestões e críticas”.

É obvio que a atual gestão da Secult convive e vem de um certo modismo gerencial, que renega a dimensão conceitual e humana, envolvida na gestão cultural. Achar que avanço é ser alimentado pelos mecanismos de patrocínio cultural e incentivo fiscal, fugindo dos compromissos com a cidadania e gerando uma apropriação mecânica e nada crítica de ferramentas da área gerencial, é estar no bonde errado da amplitude cultural.

Segundo o professor da PUC–MG, José Marcio Barros, em entrevista ao Observatório Itaú Cultural, a incompetência gerencial não diminui os recursos para a cultura, que são pequenos por falta de uma atitude que reconheça na cultura centralidade e urgência. Porém, a incompetência gerencial diminui, drasticamente, a qualidade do que fazemos e as potencialidades e desdobramentos dos resultados.

Vai ver, por isso tudo, em comemoração ao Dia Nacional da Cultura, o grande ato da Secult foi inaugurar um salão para emoldurados ex-secretários, fotogênicos ou não, risonhos ou não. Uma das leituras possíveis para tão importante ato, em prol da cultura alagoana, com raríssimas e honrosas exceções, que sou capaz de contar nos dedos da mão esquerda do Lula, sem dúvida, pode ser esta: “vejam! Temos cúmplices de antes, de agora e de sempre”. Mas não quero ser injusto ou parcial, afinal, durante o “ato”, o secretário também anunciou que para 2009 contará com o ovo no da galinha. E mais, que a galinha chama-se emenda parlamentar. Como diz a canção popular: o que dá pra rir dá pra chorar...                    
 

 

 
Doadores
(3 votos)
Literatura
Escrito por João Paulo da Silva (ascronicasdojoao.blogspot.com)   

“Você desmaia quando vê sangue? Tem gente que morre porque não vê.” Jurandir tinha visto este anúncio publicitário não sabia onde. Numa revista, talvez. Mas já fazia um tempo. Era uma dessas campanhas de incentivo à doação. Achou criativa. Ele nunca tinha doado sangue na vida. Pelo menos até a semana passada. Não que fosse um sujeito egoísta, mas é que sempre foi um daqueles que desmaia quando vê sangue. Principalmente se for o próprio sangue.
O fato é que o sogro do Jurandir arrebentou-se numa queda. Ia fazer uma cirurgia e precisava de uma transfusão.
- Você vai sim! Ora essa!
- Não, mozinho. Por favor. Olha, você sabe que tenho medo de agulha. Que não posso ver sangue. Ai, meu Deus!
- O que foi?
- Já estou com vertigens. Tá vendo só?! Pense direito, minha filha.
- Deixa de frescura, Jurandir! Você vai e ponto final!
Intimado pela mulher, o Jurandir foi. Mas levou também o irmão.
Chegaram ao laboratório especulando sobre o procedimento.
- E a agulha? Como deve ser a agulha? – perguntou o Jurandir ao irmão.
- Sei lá. Deve ser maior.
- Maior?! Cacete! Vou embora! Tu fica aí e diz eu que passei mal.
- Nada disso! Não vou doar sozinho não!
- Ai, meu Deus do céu!

Entraram no laboratório. Após terem feito o cadastro de doadores, ficaram esperando na recepção. Depois de alguns minutos, apareceu uma moça de branco na porta:
- Senhor Jurandir da Silva?
O frouxo fingiu não ouvir.
- Senhor Jurandir da Silva? – repetiu a moça.
- É tu, porra. Vai ser o primeiro. – falou o irmão, cochichando e rindo.
- O senhor é Jurandir da Silva? – disse a moça.
- Sou. Quer dizer, não agora.
- Me acompanhe, por favor.
Quando Jurandir já estava na porta praguejando, a enfermeira voltou-se e disse:
- Ah, o senhor Adalberto da Silva?
- Sou eu. – disse o irmão do Jurandir.
- Venha também.
O Jurandir, triunfante, olhou para ele e murmurou:
- Otário.

Foram encaminhados para uma sala menor. Havia uma balança, uma pia e um balcão com alguns equipamentos. A enfermeira disse:
- Vamos primeiro fazer um furinho no seu dedo pra ver se tá tudo ok com seu sangue.
- Eu vou morrer? – perguntou o Jurandir, querendo descontrair o ambiente.
- Vai. Mas não por isso. – respondeu a enfermeira, sem sorrir.
Beleza. Um a zero pra você, infeliz. – pensou o Jurandir.

Após os exames preliminares, os dois se dirigiram para uma cantina. Lá, perguntaram se eles queriam tomar um suco. Tomaram. Depois, outra enfermeira chamou o Jurandir para uma salinha com os seguintes dizeres: triagem clínica. Ele sentiu que a hora se aproximava.
Entrou na sala e sentou numa cadeira. Do outro lado de uma mesa, mexendo num computador, estava a enfermeira.
- O senhor é professor, certo?
- Isso.
- Já teve alguma doença infectocontagiosa?
- Olha, não que eu me lembre.
- Está tomando algum medicamento?
- Não.
- O senhor já tomou as vacinas contra o tétano e a hepatite?
- Acho que sim. Mas faz tempo.
- Bebeu ontem?
O Jurandir começou a estranhar as perguntas. Mesmo assim respondeu:
- Não, não bebi.
- O senhor usa drogas?
Hesitou um momento. Pensou em confessar que tomo uns refrescos vagabundos desde os dez anos. Mas desistiu.
- Não. Nunca usei.
- É casado?
- Sou.
- Tem relacionamentos fora do casamento?
Aí o Jurandir ficou nervoso.
- Como assim?! Aonde a senhora quer chegar com essas perguntas?! Tá insinuando o quê?! Isso aqui é algum tipo de pegadinha? Algum teste de fidelidade? Cadê a câmera? Cadê a câmera?
- Calma, senhor. Calma. Essas perguntas fazem parte do procedimento. É pra saber se o sangue não está contaminado.
- É?
- É.
- Ah, tá. Desculpe. Sendo assim, tudo bem. É claro que não tenho nada fora do casamento. Ora essa.

Levaram o Jurandir para a sala de doação. Seu irmão já estava deitado numa espécie de cama. Ele deitou numa outra e aguardou. Foi quando entrou aquela primeira enfermeira.
- Vamos começar? – disse ela.
- Não senhora! Me deixa ver o tamanho dessa agulha!
- Não. É melhor que o senhor não veja. Não agora.
- Ai, meu Deus!
- Calma. Não vai doer nada.
- É?! Então vem pra cá e deixa eu tirar o teu sangue.
Ela olhou para o Jurandir, séria novamente, sem sorrir. Amarrou seu braço com um elástico e se preparou para introduzir a agulha. Foi quando ele viu o tamanho da coisa.
- Epa! Afasta esse negócio de mim! Olha só a espessura dessa coisa, minha filha! Deve ter uns cinco centímetros de diâmetro!
Não adiantou protestar. O Jurandir acabou cedendo. Mas não deixou de gritar quando sentiu a picada da agulha.
- Ui, ui, ui. Ai, ai, ai.
- O que foi, rapaz? É só uma picadinha de formiga.
- Só se for uma formiga do tamanho de um javali! – berrou.
O irmão do Jurandir assistia a tudo isso rindo. Canalha. A enfermeira deu aos dois uma bolinha de borracha pra ficar apertando. Era pra ajudar a bombear melhor.
- Escuta, minha filha. – falou o Jurandir – Vai demorar muito?
- Só um pouquinho. Até encher aquela sacolinha.
- O quê?! Aquele saco todo?! Mas assim vai embora meu sangue! Ai, meu Deus do céu!

Os minutos passavam, o sangue ia embora e o Jurandir pensando no sogro. “Velho filho da mãe! Tinha nada que cair! Ao invés de se lascar sozinho, lasca os outros também! Ai, meu Deus! Meu sanguinho.”
Enquanto se doa sangue, ficam perguntando direto se está tudo bem. Se as pessoas não estão sentindo nada estranho. Essas coisas. Perto do final da doação, o Jurandir resolveu fazer uma brincadeirinha com a enfermeira.
- Enfermeira, me ajude! – ele falou.
- O que foi?
- Não sei. Tô ficando tonto! Minha vista tá escurecendo! Socorro! Ai minha nossa Senhora! Me acuda, moça, que eu tô morrendo!
Fechou os olhos.
- Moço! Moço! Fale comigo! O que é que tá havendo?
- Brincadeirinha!
Ela fechou a cara de novo. Dessa vez numa expressão de fúria.
- Idiota. – disse.
Agora o Jurandir tinha ido longe demais.
Terminada a doação, ele perguntou se podia tomar mais um suco.
- Vão servir um lanche pra vocês lá fora. – disse a enfermeira sem olhar para ele.
Serviram um sanduíche de queijo com suco de cajá.
- Ei, será que podemos doar sangue os três horários? Manhã, tarde e noite. Assim a gente já garante as três refeições. – perguntou o Jurandir para a moça da cantina.
Ela ficou séria. Não deve ter achado graça da piada.
Não sei se você já doou sangue. Mas, para o Jurandir, a pior coisa não foi a agulha. Foi o mau humor do pessoal. Ô povinho ranzinza! 

 


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